AVALIAÇÃO ECOLÓGICA RÁPIDA DA HERPETOFAUNA DA RESERVA BIOLÓGICA DO JARU, RONDÔNIA - BRASIL
PARTICIPANTES:
Paulo Sérgio BERNARDE
Reginaldo Assêncio MACHADO
Lílian Cristina MACEDO
Mitzi Oliveira da SILVA
Weslei Valteran dos SANTOS
INTRODUÇÃO
O Estado de Rondônia representa um mosaico de áreas de floresta (Floresta Amazônica) e de cerrados (VANZOLINI, 1986; JORGE-DA-SILVA, 1993), sendo que a maior parte está dentro do Domínio Morfoclimático da Amazônia. Esse estado é caracterizado pelo intenso desmatamento para formação de áreas de lavoura e de pastagem (VANZOLINI, 1986). As paisagens do estado de Rondônia sofreram modificações durante o processo de colonização resultando em uma diminuição de espécies de anfíbios e répteis nas áreas abertas e algumas de caráter estenóico ficaram limitadas às áreas remanescentes de florestas (BERNARDE et al., 1999; BERNARDE, 2004a; BERNARDE, 2004b; BERNARDE & MACEDO-BERNARDE, 2004; BERNARDE et al., 2004).
Em Rondônia relativamente poucos foram os estudos realizados com a fauna de anfíbios e de répteis, destacando-se três estudos de grande abrangência, dois deles ao longo da Br-364 (VANZOLINI, 1986; NASCIMENTO et al., 1988) e outro trata-se do resgate de serpentes durante a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Samuel (JORGE-DA-SILVA, 1993). BRANDÃO (2002) apresentou os resultados da avaliação ecológica rápida da herpetofauna nas reservas extrativistas de Curralinhos e Pedras Negras na região do Guaporé. Na região de Cacoal destacam-se os estudos de comunidades de anuros, lagartos e serpentes realizados em Espigão do Oeste (BERNARDE et al., 1999; BERNARDE 2004a; BERNARDE, 2004b; BERNARDE & MACEDO-BERNARDE, 2004; BERNARDE et al., 2004) e um pequeno levantamento de espécies em Pimenta Bueno (YUKI et al., 1999). Na região de cerrado, localizada ao sul do estado, foi descrita uma nova espécie de lagarto (COLLI et al., 2003) e desenvolvido estudo sobre comunidade de lagartos (GAINSBURY & COLLI, 2003).
Apesar das modificações ambientais ocorridas na região Sudoeste da Amazônia, os estudos herpetofaunísticos que abordaram esse tema foram realizados no Município de Espigão do Oeste, existindo uma lacuna de informações sobre a riqueza de espécies e a ocorrência destas nos habitats em varias localidades de Rondônia.
OBJETIVOS
O presente estudo tem como objetivo realizar um levantamento das espécies de anfíbios e répteis da Reserva Biológica do Jaru e seu entorno em diferentes formações vegetais (Floresta Ombrófila Aberta, Floresta Ombrófila Densa, Formação Rupestre Pioneira em afloramento rochoso, Mata Aluvial, Mata secundária, pastagem, etc.), registrando os ambientes e analisando o grau de conservação e importância de cada ponto para a herpetofauna.
MATERIAL E MÉTODOS
A ReBio Jaru apresenta uma área de cerca de 268.000 hectares e está localizada nos municípios de Ji-Paraná, Vale do Anari e Machadinho do Oeste em Rondônia.
O trabalho de campo foi realizado entre os dias 30 de abril a 11 de maio de 2006, utilizando-se os seguintes métodos: procura visual, armadilhas de interceptação e queda, observações oportunísticas (encontros ocasionais) e registros por terceiros (espécimes coletados ou fotografados por outros pesquisadores).
O deslocamento pela unidade de conservação e seu entorno foi efetuado através de automóveis, caminhadas, barcos e helicóptero.
MÉTODOS DE AMOSTRAGEM:
1) Procura Visual (CAMPBELL & CHRISTMAN, 1982): Foram feitas procura de espécimes durante o dia e a noite nas trilhas, carreadores, estradas e ambientes aquáticos (açudes, igarapés, poças temporárias, etc.). Procurou-se caminhar lentamente durante a noite, procurando registrar todos os espécimes visualmente expostos (ver MARTINS & OLIVEIRA, 1998; BERNARDE, 2004a). Durante o dia a serapilheira e troncos caídos foram removidos a procura de espécimes.
2) Armadilhas de Interceptação e Queda (“Pitfall”) (ver FITCH, 1987; HEYER et al., 1994): Foram construídos quatro conjuntos de armadilhas, dois na da trilha da Sede e dois na trilha da torre do Projeto LBA. Cada conjunto de armadilha consistiu de quatro baldes de 100 litros (altura de 64 cm; 50 cm de diâmetro) intercalados a cada 10 metros. A cerca tinha 40 metros de comprimento e uma altura de 66 cm. Foram seguidas as recomendações propostas por CECHIN & MARTINS (2000). As armadilhas permaneceram abertas apenas durante a fase se campo.
Figura 1: Armadilha de interceptação e queda "Pitfall". Foto por Lílian C. MACEDO.
Figura 2: Armadilha de interceptação e queda "Pitfall". Foto por Lílian C. MACEDO.
3) Observações Oportunísticas (= Encontros Ocasionais) (ver MARTINS & OLIVEIRA, 1998; BERNARDE, 2004a): Aqui se enquadram os espécimes registrados durante outras atividades como o deslocamento nas estradas ou de barco nos rios e também encontros de espécimes atropelados.
4) Registros Auditivos: Durante a procura visual foram registradas também as espécies em atividade de vocalização (ver HEYER et al., 1994).
4) Coleta por Terceiros (ver CUNHA & NASCIMENTO, 1978; BERNARDE, 2004a): São os espécimes coletados ou fotografados pelos pesquisadores de outras equipes.
RESULTADOS PRELIMINARES
Foram registradas durante a primeira fase de campo 79 espécies de anfíbios e répteis. Essa primeira fase de campo ocorreu no período do início da seca, podendo-se esperar portanto um acréscimo considerável de espécies na segunda fase que será durante o período de chuvas em novembro de 2006.
Espécies de anfíbios e répteis registradas na Reserva Biológica do Jaru (Rondônia - Brasil) durante a primeira fase de campo (30 de abril a 11 de maio de 2006):
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CLASSE AMPHIBIA |
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ORDEM ANURA |
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ALLOPHRYNIDAE |
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Allophryne ruthveni Gaige, 1926 |
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BUFONIDAE |
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Bufo guttatus Schneider, 1799 |
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Bufo gr. margaritifer sp.1 |
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Bufo gr. margaritifer sp. 2 |
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Bufo marinus (Linnaeus, 1758) |
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CENTROLENIDAE |
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Gen. sp. |
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DENDROBATIDAE |
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Colostethus brunneus (Cope, 1887) |
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Colostethus gr. marchesianus |
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HYLIDAE |
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Dendropsophus marmoratus (Laurenti, 1768) |
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Dendropsophus minutus (Peters, 1872) |
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Dendropsophus gr. parviceps |
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Dendropsophus sp. |
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Hypsiboas boans (Linnaeus, 1758) |
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Hypsiboas calcaratus (Günther, 1858) |
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Hypsiboas geographicus (Spix, 1824) |
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Hypsiboas lanciformis (Cope, 1871) |
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Osteocephalus taurinus Steindachner, 1862 |
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Osteocephalus sp. |
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Phyllomedusa tomopterna (Cope, 1868) |
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Phyllomedusa vaillanti Boulenger, 1882 |
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Scinax ruber (Laurenti, 1768) |
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LEPTODACTYLIDAE |
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Adenomera andreae (Müller, 1923) |
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Adenomera hylaedactyla (Cope, 1868) |
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Eleutherodactylus fenestratus (Steindachner, 1864) |
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Eleutherodactylus gr. conspicillatus |
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Eleutherodactylus sp.1 |
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Engystomops petersi (Jiménez-de-la-Espada, 1872) |
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Leptodactylys mystaceus (Spix, 1824) |
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Leptodactylus pentadactylus (Laurenti, 1768) |
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Leptodactylus rhodomystax Boulenger, 1884 |
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Leptodactylus wagneri (Peters, 1862) |
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Leptodactylus gr. fuscus |
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Vanzolinius discodactylus (Boulenger, 1884) |
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MICROHYLIDAE |
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Chiasmocleis ventrimaculata (Andersson, 1945) |
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Ctenophryne geayi Mocquard, 1904 |
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RANIDAE |
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Rana palmipes |
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CLASSE REPTILIA |
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ORDEM TESTUDINES |
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SUBORDEM CRYPTODIRA |
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KINOSTERNIDAE |
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Kinosternon scorpioides (Linnaeus, 1766) |
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SUBORDEM PLEURODIRA |
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PODOCNEMIDIDAE |
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Podocnemis expansa (Schweigger, 1812) |
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SUBORDEM |
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ORDEM SQUAMATA |
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SUBORDEM SAURIA |
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GEKKONIDAE |
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Coleodactylus amazonicus (Anderson, 1918) |
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Gonatodes hasemani (Griffin, 1917 |
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Gonatodes humeralis (Guichenot, 1855) |
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Hemidactylus mabouia (Moreau de Jonnès, 1818) |
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IGUANIDAE |
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Iguana iguana (Linnaeus, 1758) |
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POLYCHROTIDAE |
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Anolis fuscoarautus D’Orbigny, 1837 |
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Anolis nitens (Wagler, 1830) |
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Anolis transversalis A. Duméril, 1851 |
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Anolis sp. |
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TROPIDURIDAE |
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Tropidurus sp. |
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Uranoscodon supercilosus (Linnaeus, 1758) |
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GYMNOPHTHALMIDAE |
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Cercosaura eigenmanni (Griffin, 1917) |
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Cercosaura ocellata Wagler, 1830 |
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Cercosaura schreibersii Wiegmann, 1834 |
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Iphisa elegans Gray, 1851 |
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TEIIDAE |
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Ameiva ameiva (Linnaeus, 1758) |
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Kentropyx calcarata Spix, 1825 |
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Tupinambis sp. |
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SCINCIDAE |
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Mabuya nigropunctata (Spix, 1825) |
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TYPHLOPIDAE | |
|
Typhlops reticulatus (Linnaeus, 1776) | |
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BOIDAE | |
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Boa constrictor Linnaeus, 1758 | |
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Epicrates cenchria Linnaeus, 1758 | |
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COLUBRIDAE | |
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COLUBRINAE | |
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Drymoluber dichrous (Peters, 1863) | |
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Leptophis ahaetulla (Linnaeus, 1758) | |
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Oxybelis fulgidus (Daudin, 1803) | |
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Pseustes poecilonotus (Günther, 1858) | |
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Rhinobothryum lentiginosum (Scopoli, 1785) | |
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DIPSADINAE | |
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Atractus snethlageae Cunha & Nascimento, 1983 | |
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Atractus sp. | |
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Imantodes cenchoa (Linnaeus, 1758) | |
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XENODONTINAE | |
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Echinanthera occipitalis (Jan, 1863) | |
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Erythrolamprus aesculapii (Linnaeus, 1766) | |
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Helicops angulatus (Linnaeus, 1758) | |
Oxyrhopus melanogenys (Tschudi, 1845) | |
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Siphlophis cervinus (Laurenti, 1768) | |
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Siphlophis worontzowi (Prado, 1940) | |
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Xenopholis scalaris (Wücherer, 1861) | |
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VIPERIDAE | |
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Bothrops atrox (Linnaeus, 1758) | |
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Bothriopsis taeniata (Wagler, 1824) | |
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CROCODYLIA | |
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ALLIGATORIDAE | |
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Caiman crocodilus (Linnaeus, 1758) | |
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Paleosuchus sp. | |
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Figura 3: Allophryne ruthveni (Anura: Allophrynidae). Foto por Lílian C. MACEDO.
Figura 4: Allophryne ruthveni (Anura: Allophrynidae). Foto por Lílian C. MACEDO.
Figura 5: Bufo gr. margaritifer. Foto por Lílian C. MACEDO.
Figura 6: Tupinambis sp. capturado em pitfall. Foto por Lílian C. MACEDO.
Figura 7: Bothriopsis taeniata. Foto por Lílian C. MACEDO.

Figura 8: Lílian C. Macedo manuseando uma Oxibelys fulgidus. Foto por Mitzi OLIVEIRA.
TABELA I: Espécies de anfíbios e répteis registradas
na Reserva Biológica do Jaru através de amostragem: P. V. = Procura Visual; R.
A. = Registro Auditivo; AIQ = Armadilhas de Interceptação e Queda “Pitfall”; OBS
= Observações Oportunísticas; TER = Registros por
Terceiros.
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ESPÉCIES |
P.
V. |
AIQ |
R.
A. |
OBS. |
TER |
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CLASSE
AMPHIBIA |
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ORDEM
ANURA |
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ALLOPHRYNIDAE |
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|
Allophryne ruthveni
Gaige,
1926 |
X |
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|
BUFONIDAE |
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Bufo guttatus
Schneider, 1799 |
X |
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Bufo
gr. margaritifer sp.1 |
X |
X |
X |
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Bufo
gr. margaritifer sp.
2 |
X |
X |
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Bufo
marinus (Linnaeus,
1758) |
X |
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X |
X |
X |
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CENTROLENIDAE |
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Gen.
sp. |
X |
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DENDROBATIDAE |
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Colostethus
brunneus (Cope,
1887) |
X |
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Colostethus gr. |