O USO DE ARMADILHAS DE INTERCEPTAÇÃO E QUEDA ("PITFALL TRAPS") EM ESPIGÃO DO OESTE, RONDÔNIA - BRASIL
Paulo Sérgio Bernarde
Universidade Federal do Acre - UFAC
Campus Floresta - Cruzeiro do Sul - AC
No período de Abril de 2001 à Março de 2002, utilizei armadilhas de interceptação e queda ("pitfall traps with drift-fences") (Veja CAMPBELL & CHRISTMAN, 1982; HEYER et al., 1994) em atividades de pesquisa com a herpetofauna em Espigão do Oeste - Rondônia (BERNARDE, 2004a; 2004b; BERNARDE & MACEDO-BERNARDE, 2004; BERNARDE et al., 2004). Para construção destas armadilhas, segui as recomendações de CECHIN & MARTINS (2000). Este método de coleta foi relativamente pouco empregado no Brasil com anfíbios e répteis, havendo poucos estudos publicados em revistas científicas (veja CECHIN & MARTINS, 2000; ROCHA et al., 2004; LOEBMANN & VIEIRA, 2005; BRASILEIRO et al., 2005). Além da amostragem da herpetofauna, este método pode ser utilizado também para outros animais, como por exemplo, pequenos mamíferos e artrópodes.
Relato aqui um pouco da minha observação e resultados durante um ano de amostragem.
Figura 1: Localização da área de estudo "Espigão do Oeste - RO".
Primeiramente, o que são as armadilhas: São conjuntos de tambores enterrados no solo com a boca até na superfície, unidos por cercas de um metro de altura. Pequenos animais tendem a acompanhar a cerca e podem cair dentro no tambor.

Figura 2: Armadilha instalada dentro floresta. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 3: Armadilha instalada em área de pastagem. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 4: Armadilha instalada dentro de floresta. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 5: Vista superior da armadilha. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 6: Armadilha instalada dentro de floresta. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 7: Vista lateral da armadilha. Foto por P. S. Bernarde.
TABELA I: Gastos com a construção das armadilhas.
|
MATERIAL |
V. UNITÁRIO |
V. TOTAL |
|
tambores |
26,00 |
650,00 |
|
lona plástica |
0,40 |
500,00 |
|
estacas de madeira |
100,00 |
|
|
grampeador |
25,00 |
25,00 |
|
caixas de grampos |
3,50 |
10,50 |
|
mão de obra |
75,00 |
150,00 |
|
TOTAL |
1.435,50 |
ESCOLHA DOS LOCAIS
Escolhi três ambientes: floresta primária, distante de corpos d'água permanente; floresta primária próximo (100 - 200 metros) de um ribeirão (4 m de largura); área de pastagem.
Em cada ambiente, instalei dois conjuntos de armadilhas. Cada conjunto em um ambiente foi instalado a uma distância de 300 - 500 metros um do outro. Os conjuntos de cada ambiente, foram instalados a uma distância mínima de 1.500 metros das armadilhas dos outros ambientes.
Além do levantamento e a sazonalidade, outro objetivo foi o de comparar as espécies em áreas de floresta (próximo ou não de rios) e áreas de pastagens. Desta maneira, pode se ter uma idéia da perda de riqueza de espécies nas pastagens e o impacto do desmatamento sobre a herpetofauna (BERNARDE & MACEDO-BERNARDE, 2004; BERNARDE et al., 2004). Além disso, foram obtidas informações sobre a disponibilidade de presas (anuros, lagartos, roedores e marsupiais) das serpentes ao longo do ano (BERNARDE, 2004a).
CONSTRUÇÃO
Foi aberto trilhas dentro da mata e com uma trena, medido a distância necessária (44 metros) para a instalação das armadilhas. Foram utilizados tambores de 200 litros, com altura de 90 centímetros. Os buracos para alojarem os tambores foram feitas com cavadeiras manuais. As estacas de 1,40 m de altura foram enterradas no chão batendo-as com uma marreta até a altura de 1 metro. Optei por colocar uma estaca a cada metro, para que a cerca não deitasse, o que foi suficiente para isso. Na parte inferior de cada tambor, foram feitos pequenos furos com furadeira elétrica, para que ele não se enchesse de água. Os tambores são comprados fechados, para abri-los, foi utilizado um facão e uma marreta; batendo com a marreta no facão podem ser cortadas as tampas dos tambores. Com a marreta e o facão, foram feitas as aberturas nas superfícies dos tambores, por onde passou-se a parte inferior (cerca de 10 cm) da lona que permaneceu enterrada no chão. Foi feito uma vala (15 cm) entre cada tambor, para enterrar a parte inferior da lona no chão. Após os tambores terem sido enterrados até a superfície do chão e as estacas colocadas, a cerca de lona foi grampeada. Depois disso, enterrou-se a parte inferior da lona na vala que fora feita. Foram colocados isopores nos tambores da área de pastagem e em alguns na floresta, para evitar a insolação direta nos animais capturados e para que não se afogassem durante as chuvas.
INSPEÇÃO
Foram realizadas inspeções a cada 2-3 dias. Foram colocados em cada conjunto, um gancho e uma vara com peneira na ponta. Com o gancho foram capturadas as serpentes, já os demais animais (anuros, lagartos, roedores, marsupiais, artrópodos, etc.), foram retirados com a peneira.
Depois que todas as espécies tivessem uma amostra significativa na coleção, comecei a soltar os animais capturados. Os roedores e marsupiais foram todos soltos.
RESULTADOS PARCIAIS
TABELA II: Quantidade de espécimes capturados por grupo animal durante 1 ano de amostragem (Abril/2001 à Março/2002).
|
ANUROS |
1.324 |
|
GIMNOFIONOS |
05 |
|
LAGARTOS |
237 |
|
SERPENTES |
63 |
|
TESTUDINES |
01 |
|
ANFISBÊNIOS |
01 |
|
AVES |
01 |
|
MARSUPIAIS |
155 |
|
ROEDORES |
622 |
|
TATUS |
11 |
Figura 8: Falsa-coral (Drepanoides anomalus) capturada em armadilha. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 9: Um lagarto (Plica plica) capturado na armadilha. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 10: Um marsupial capturado na armadilha. Foto por P. S. Bernarde.

Figura 11: Um tatu capturado na armadilha. Foto por P. S. Bernarde.
BIBLIOGRAFIA
BERNARDE, P. S. 2004a. Composição faunística, ecologia e história natural de
serpentes em uma região no Sudoeste da Amazônia, Rondônia, Brasil. Tese de
Doutorado, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro – SP.
BERNARDE, P. S. 2004b. Anurofauna em uma localidade no
Sudoeste da Amazônia, Rondônia, Brasil (Amphibia: Anura). Resumos, In: XXV
Congresso Brasileiro de Zoologia, Brasília, DF, p.191.
BERNARDE, P. S. 2004. Anurofauna em uma localidade no
Sudoeste da Amazônia, Rondônia, Brasil (Amphibia: Anura). Resumos, In: XXV
Congresso Brasileiro de Zoologia, Brasília, DF, p.191.
BERNARDE, P. S. & MACEDO-BERNARDE, L. C. 2004. Impacto do
desmatamento e formação de pastagens sobre a anurofauna de serapilheira em
Rondônia, Brasil (Amphibia: Anura). Resumos, In: XXV Congresso Brasileiro de
Zoologia, Brasília, DF, p.191.
BERNARDE, P. S.; ABE, A. S. & MACEDO-BERNARDE, L. C. 2004.
Comunidade de lagartos em uma localidade em Espigão do Oeste, Rondônia. Resumos,
In: XXV Congresso Brasileiro de Zoologia, Brasília, DF, p.406.
BRASILEIRO, C. A.; SAWAYA, R. J.; KIEFER, M. C. & MARTINS, M.
2005. Amphibians of an open cerrado fragments in southeastern Brazil. Biota
Neotropica 5(2):1-17.
CAMPBELL, H. W. & CHRISTMAN, S. P. 1982. Field techniques for
herpetofaunal community analysis, In: SCOTT Jr., N. J. ed. Herpetological
communities: a Symposium of the Society for the Study of Amphibians and Reptiles
and the Herpetologists’ League. Washington, U. S. Fish Wildlife Service.
p.193-200.
HEYER, R. H.; DONNELLY, M. A.; MCDIARMID, R. W.; HAYEK, L. C.
& FOSTER, M. S. 1994. Measuring and monitoring biological diversity: Standard
methods for amphibians. Washington, Smithsonian Institution Press. 364p.
LOEBMANN, D. & VIEIRA, J. P. 2005. Relação dos anfíbios do
Parque Nacional da Lagoa do Peixe, Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira
de Zoologia 22(2):339-341.
ROCHA, C. F. D.; VAN-SLUYS, M.; HATANO, F. H.; BOQUIMPANI-FREITAS, L.; MARRA, R. V. & MARQUES, R. V. 2004. Relative efficiency of anuran sampling methods in a restinga habitat (Jurubatiba, Rio de Janeiro, Brazil). Revista Brasileira de Biologia 64(4):879-884.